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22 outubro 2015

Li e recomendo: "Cinco minutos" (1856), de José de Alencar.



Cinco Minutos

Ele a conheceu no ônibus. Só entrara naquele ônibus porque havia chegado cinco minutos atrasado. Sentou-se ao fundo, no banco ao lado do dela. Não a conhecia nem podia lhe conhecer, pois seu rosto estava escondido entre a volumosa seda que trajava. Mesmo assim, ali os dois iniciaram seu romance.

Logo os braços dos dois fortemente se tocavam e ele, assustando-a, lhe entregava um beijo no ombro. Durante um curto tempo acreditou que ela era feia, mas depois, ao sentir seu perfume, viu como ela deveria ser extremamente bela. Porém logo o ônibus parou e ela se despediu dizendo apenas: “não se esqueça de mim”.

Desta maneira ele passou a amá-la sem conhecê-la e a buscá-la incansavelmente. Tempos depois reconheceu em uma velha a mesma voz de sua amada desconhecida, e temeu estar apaixonada por uma senhora. Mas logo descobriu que amava a filha dessa senhora.

Finalmente reencontrou-se com ela no teatro, e como ela não lhe falou nada antes de ir embora, disse-lhe como era má por tratá-lo daquela maneira. Em sua casa encontrou uma carta assinada por ela, Carlota, que afirmava que fugia dele por que o amava, mas que por ele ser amada não convinha, pois viveriam um romance desgraçado. Assim, ele pronto para esquecê-la se retirou na Tijuca e quando retornou já se sentia arrependido te ter negado sua paixão, porém para sua surpresa encontrou uma carta.

Carlota lhe escrevera afirmando que amava-o e sempre ficava a espera de o ver passar pela janela, mas que agora estava indo a Petrópolis. A carta já contava dois dias, e o ato instantâneo dele foi ir a Petrópolis também. Chegando lá perguntou, oferecendo dinheiro, se duas senhoras não haviam subido por esses dias, o resultado foi ficar na janela de Carlota a ouvindo cantar.

Posteriormente, ela teve com ele e sozinhos declararam seu amor. Radiante, ele foi embora e assim no dia seguinte encontrou uma nova carta dela, que lhe avisava que estava de volta ao Rio, e que agora a distância lhes separavam por 24 horas, tendo ele a chance de escolher ir atrás dela ou não se arriscar naquele romance que ela afirmava tão difícil. Difícil porque ela estava doente. 

Nessa mesma carta, Carlota contava a ele que desde que se iniciara na corte notara nele uma diferença e se apaixonara. Seguia-o sempre com o olhar e que desde então o amou, porém condenava seu romance porque estava doente, tinha consigo uma doença que lhe condenava à morte. Sendo assim dava a ele a opção de amá-la e ir ter com ela ou de esquecê-la. 

Ele, assim que leu a carta com pressa, deixou o hotel. Desesperadamente comprou um cavalo com quem voou para a praia a fim de tomar a barca naquele dia ainda. Conseguiu chegar à praia, mas a barca já havia partido e o fiel cavalo que voara pela estrada morreu exausto.

A seguinte medida foi importunar um pescador para que esse o levasse em sua canoa até o Rio em troca de ganhar o valor que conquistaria com um mês de pescaria. Dentro da canoa sonhava com o momento que por fim estaria com Carlota, no entanto como ambos tomaram uma dose de vinho acabaram adormecendo e perdendo os remos.

Passaram a noite na canoa e já chegavam a mais uma noite quando, energizado pelo vinho, o pescador nadava puxando a canoa. Chegaram a uma ilha já com a lua no céu e ali conseguiram mais dois remos, que permitiram finalmente chegar ao Rio de Janeiro.

No entanto, o que encontrou foi mais uma carta de Carlota que incrivelmente já sabia de seus feitos e que justificava a sua tardia chegada como um contratempo na viagem feita com canoa. A carta ainda avisava que agora ela estava a caminho da Europa. Novamente ele a seguiu e foi assim que, chegando à Europa, em cada correio de cada cidade que passava ele encontrava uma carta de Carlota que lhe indicava que caminho seguir para encontrá-la.

Quando finalmente estiveram juntos, apenas desfrutaram do amor que tinham um pelo outro. Foi em uma tarde que ela lhe pediu que antes que ela morresse – coisa que não demoraria – ele selasse a sua morte com um beijo. Acabado de dizer isso e ouvir a promessa, afirmou que era o momento. Ele a beijou.

A reação de Carlota foi desejar a vida. E assim o amor a curou. Casaram-se e por muito tempo viveram na Europa se separando apenas quando ele ia ter com seus livros e ela com suas flores. Assim viveram felizes em seu amor por um bom tempo na Europa e depois de volta ao Brasil.

Por Rebeca Cabral


SOBRE O LIVRO



Cinco minutos é o romance de estreia de José de Alencar. Foi publicado primeiramente em folhetins, sob pseudônimo, no Diário do Rio de Janeiro, em 1856. O livro é construído como carta para D..., prima do anônimo narrador, que se propõe a contar não um "romance", mas uma "história curiosa". 

Ele começa a narração dizendo que, tendo perdido, por cinco minutos, o ônibus para Andaraí, esperou pelo seguinte e, ao sentar-se casualmente ao lado de uma mulher, ficou curioso em ver-lhe o rosto, que estava coberto por um véu. Pressentindo que se tratava de uma bela jovem, procura abordá-la e surpreende-se ao perceber que ela permite que lhe segure as mãos e lhe beije o ombro. Mas, de repente, ela desce do carro, murmurando-lhe uma frase da famosa ópera O trovador, de Verdi: Non ti scordar di me ("Não te esqueças de mim") e desaparece, sem deixar pistas. 


Seduzido pela enigmática mulher, ele tenta localizá-la durante dias, mas em vão. Aos poucos, vai conseguindo algumas informações sobre ela e espanta-se com os recursos da jovem para permanecer incógnita. Afinal, por que ela o evita, se sentada a seu lado, no ônibus, foi tão ousada? 


Finalmente, consegue encontrar-se com ela e descobre tratar-se de uma jovem de 16 anos chamada Carlota, que há tempos o amava sem que ele soubesse. Por isso, ela tinha tido aquele comportamento no ônibus. E já o teria procurado, não fosse um trágico obstáculo: ela sofria de tuberculose e tinha pouco tempo de vida. 


Mais algumas peripécias impedem a aproximação dos dois. Ela parte com a mãe para a Itália, em busca de melhores ares, e ele as alcança em Nápoles, vencendo uma série de dificuldades. Carlota não melhora e parece estar à beira da morte. Uma tarde, sentindo chegar o seu fim, ela pede ao amado que, nesse último momento, receba nos lábios a sua alma. Eles se beijam. É o primeiro beijo de amor que eles trocam. 


Nesse instante, ocorre um verdadeiro "milagre de amor". Carlota sente uma estranha força nascer dentro dela e, a partir desse momento, readquire a saúde. Os médicos, mais tarde, explicam essa reação como efeito das mudanças de clima, mas para os dois trata-se de um milagre provocado pela intensidade do amor. Eles voltam ao Brasil, casam-se e vão morar em Minas Gerais, na "quebrada de uma montanha", em plena natureza, felizes para sempre.




SOBRE O AUTOR
José de Alencar

Nasceu em 1829, no Ceará, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1877, onde passou a maior parte de sua vida. Formado em Direito, participou ativamente da vida política nacional. Paralelamente à vida política, dedicou-se com entusiasmo à literatura e ao jornalismo. Escreveu crônicas, crítica literária, peças de teatro, mas destacou-se, mesmo, como o autor mais importante do nosso Romantismo.