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22 outubro 2015

Li e recomendo: "Lucíola" (1862), de José de Alencar.



SOBRE O LIVRO



A heroína que dá nome ao romance é uma daquelas criações bem ao gosto do Romantismo. Seduzida ainda mocinha por um homem devasso, num momento de infortúnio em que precisava de dinheiro para salvar os familiares doentes, ela é expulsa de casa pelo próprio pai. Trocando de nome (de Maria da Glória passa a Lúcia), começa a viver como uma cortesã caprichosa, explorando seus ricos amantes, por quem manifesta um claro desprezo. Essa vida de luxo e prazeres, porém, não extingue a pureza de sua alma, que parece apenas esperar o momento certo para desabrochar. Esse momento chega quando Paulo da Silva, um jovem pernambucano que chega ao Rio de Janeiro, se apaixona por ela. Esse afeto sincero faz com que a verdadeira natureza de Lúcia venha à tona. É essa luta entre a força regeneradora do amor puro e uma vida de pecados e devassidão que José de Alencar focaliza com muito vigor. Dedicando-se de corpo e alma ao amor de Paulo, que foi capaz de compreender e perdoar seu passado, Lúcia encontra pela primeira vez na vida a tão almejada paz de espírito. Mas, vitimada por uma doença fatal, vem a falecer na flor da idade, cercada pelos carinhos de Paulo, a quem encarrega de cuidar -- como pai -- de sua irmã mais nova, Ana.


SOBRE O AUTOR

José de Alencar


Nasceu em 1829, no Ceará, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1877, onde passou a maior parte de sua vida. Formado em Direito, participou ativamente da vida política nacional. Paralelamente à vida política, dedicou-se com entusiasmo à literatura e ao jornalismo. Escreveu crônicas, crítica literária, peças de teatro, mas destacou-se, mesmo, como o autor mais importante do nosso Romantismo. 



Lucíola

Paulo se encontrou com Lúcia pela primeira vez em uma rua do Rio de Janeiro, seu primeiro contato foi lhe entregar o leque que ela acabara de deixar cair. Desde esse momento Lúcia o amou – como mais tarde revelou a ele.

Mais tarde eles se encontraram em um dos bailes e foram apresentados por Sá, amigo de Paulo. Daí em diante os dois se ligaram eternamente. Nos dias seguintes a essa apresentação, ele foi ter com Lúcia na casa dela. Depois de conversarem um pouco ela, com uma sensualidade e ferocidade distinta, fez seu serviço – Lúcia era uma prostituta.

Tratava se de uma jovem de 19 anos, uma das mais belas da corte. Tinha amantes por seis ou menos meses e depois se separava deles para sempre. Era rica e avarenta e a grande maioria dos homens a desejava.

Paulo era um recém chegado ao Rio. Não era um homem rico, na verdade, afirmava ser pobre. Era um homem simples. Viera para a corte para iniciar uma vida, ou seja, firmar-se em uma profissão e fazer uma família.

Desde a primeira fez que estiveram juntos, ele já a desejava. E foi assim que foram a um jantar na casa de Sá. Na verdade se tratava de uma noite de orgia preparada. Eram quatro cavalheiros – dentre eles Paulo, Sá e Couto – e quatro mulheres, uma para cada um deles. Lúcia e Paulo eram um casal.

Primeiro findariam a refeição e poriam fim ao alto consumo de bebidas para depois vir a segunda parte, às duas horas da manhã, para preservarem a “inocência dos criados”. Depois de comer e beber, Sá pediu atenção aos quadros na parede e assim que todos observaram, Lúcia começou uma apresentação sensual de representação das obras.

Paulo, que pedira a ela que não fizesse tal coisa, se retirou da sala. Porém ainda observou algumas ações pela porta entreaberta. Acabada a apresentação, Lúcia foi para fora também, lá ela e Paulo desculparam-se. Ele que não queria ser tão radical ao sair da mesa e ela por ter sido tão baixa com aquela demonstração. Assim, os dois se perdoaram e juraram que estariam juntos. E dormiram ali fora.

Daí para frente Lúcia e Paulo se tornaram amantes. Ele fora declarado por ela dono e senhor dela própria e da casa em que viviam – posição que a nenhum outro ela concedera – e ele ficava lá tendo permissão para sair apenas nas terças e quintas. Assim passaram por uma pequena existência.

Foi quando Paulo se encontrou com Sá que um problema os atingiu. Afirmavam por toda a corte que Lúcia o sustentava, visto que a moça não aparecia mais nos bailes, não se via vestidos e jóias chegando a seu endereço e ainda não a viam ocupando nenhum camarote no teatro. Depois dessa os dois tiveram o primeiro “rompimento”.

Lúcia, que dizia obedecer qualquer vontade de Paulo, no mesmo dia procurou a Couto, um velho rico. Assim as acusações se findariam. Ele os viu juntos pela manhã e quando à tarde foi até a casa dela, encontrou- a arrumando-se para sair com ele. Porém, Lúcia vendo que isso não agradava a Paulo imediatamente tirou o vestido e mandou falou a Couto que não iria, mas Paulo disse-lhe para ir e assim ela fez. No dia seguinte já estavam unidos novamente. 

Viviam juntos em sua casa, até que com o tempo o fogo que tinham foi acabando e o relacionamento já não era como antes. Lúcia temia estar com Paulo, no entanto a presença dele a alegrava e era a única coisa que desejava. Foi assim que uma vez separados ela foi à casa dele, onde organizou tudo, e depois se reconciliaram. Nessas circunstâncias, um homem desprezível chamado Jacinto entrou para a convivência deles.

Assim que Lúcia o declarou como apenas uma espécie de criado, Paulo se aquietou.

Nesse tempo, Lúcia já passara a dormir em outro quarto, muito mais simples e casto, suas roupas também neste tempo tinham se tornado simples. Os dois viviam apenas desfrutando a companhia de um e outro. Foi então que Paulo, querendo fazer uma surpresa, chegou à casa de Lúcia silenciosamente, porém o que viu foi Jacinto dando-lhe algo que parecia ser dinheiro no antigo quarto dela, onde os lençóis estavam todos bagunçados.

Paulo sentia-se traído. Porém mais tarde descobriu, ouvindo o próprio Jacinto contar, que os lençóis estavam bagunçados porque veio ali um comprador que quis avaliar os móveis e seu estado, e que o que ele entregava a ela eram os papéis da venda daquela casa e a compra de um sítio mais afastado.

Uma nova fase na vida de Lúcia e Paulo começou. Ela mudou-se para o tal sítio e ali vivia com sua irmã, Ana, que tinha doze anos. Paulo freqüentava a casa assiduamente, ele e Lúcia viviam uma espécie de amizade, ele muitas vezes desejava mais, mas Lúcia afirmava que o maior bem que poderia ter era a presença dele, e que estarem juntos era impossível, ainda mais que podia lhes ocorrer uma gravidez, o que para ela seria terrível. Ter que doar parte de sua alma e da dele que estava nela para o nascimento de um filho.

Assim viviam em uma grande simplicidade. Nesse tempo Lúcia contou a ele sua história, de como era uma menina pobre e que vira todos que amava, ou seja, sua família, sofrerem com a febre amarela e ela, sendo a única sadia, acabou prostituindo-se no máximo de sua inocência para conseguir dinheiro para socorrer a família. Contou ainda como Couto a iniciara e ainda como, depois de curado, o pai a expulsou de casa ao saber a origem do dinheiro. Isto fez com que ela realmente se firmasse na profissão. Seu verdadeiro nome era Maria da Glória, mas chamava-se Lúcia pois havia assumido o nome de uma amiga que teve e com quem dividiu a casa. Quando ela morreu, Maria da Glória fez o óbito em seu nome e se tornou Lúcia, dando à sua família não mais uma filha prostituta, mas só a boa filha que morrera. Foi para a Europa como Lúcia e quando voltou encontrou apenas Ana viva.

Lúcia então entregara toda a sua riqueza para a irmã e vivia apenas do pouco que ganhava trabalhando – não mais como prostituta. Por fim, Lúcia pediu a Paulo que se cassasse com Ana, pois assim eles mesmos seriam eternamente ligados e ele encontraria em Ana ela mesma.

Depois disso, Lúcia adoeceu. A verdade era que estava grávida de Paulo e para ela era a hora de partir, servindo ela mesma de túmulo para o filho. Foi assim que em seus últimos momentos declarou que amara Paulo desde a primeira vez que se viram e pediu-lhe mais uma vez para que se cassasse com Ana, mas Paulo disse que não seria capaz, então Lúcia o incumbiu de ser como um pai para a menina, e ali, em um último beijo, ela partiu.

Paulo nunca se casou, vivia na lembrança de seu amor por Lúcia e servindo a Ana, que estava feliz e casada, como um pai.

Por Rebeca Cabral