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18 janeiro 2016

Poema: "Boca", de Carlos Drummond de Andrade.

BOCA

Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro, que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.

Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.

Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.

(Brejo das Almas (1934), de Carlos Drummond de Andrade.)