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03 abril 2016

Poema: "Estrambote melancólico", de Carlos Drummond de Andrade.


ESTRAMBOTE MELANCÓLICO

Tenho saudade de mim mesmo, saudade
sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d’alva
penetra longamente seu espinho

(e cinco espinhos são) na minha mão.

(Fazendeiro do ar (1954), de Carlos Drummond de Andrade.)